06 maio 2014

Valor

 - Quais são seus medos? Pergunta o psicólogo.

     Wágner ri; faz aquela cara que seguidamente faz, e responde:

 - Perder a visão, ou a audição, mas nada comparado ao tato ou ao paladar. Paladar porque o gosto das coisas, é muito maravilhoso, gosto do beijo, muitas pessoas não pensam assim; Tato, porque nada se compara a sentir calor ou frio, gelado ou quente, o toque; A audição, porque gosto muito de música, e de gritos, mas não de reclamação, desses desgosto; e a visão, porque o nascer e o pôr-do-sol são um misto de coisas não representadas pela paz de espírito, nos piores dias, ele acalma, nos melhores dias, ele acalma também. Sinto como se o meu coração precisasse se acalmar, tudo anda muito movimentado dentro de mim, tenho dias mais longos e mais curtos do que gostaria, e sei que o senhor não vai entender exatamente, mas se baseia muito no meu excesso de amor, ando amando demais. Hoje, por exemplo, acordei às sete horas, e só fiquei tranquilo quando abri os meus olhos e vi que ela estava lá, só sei definitivamente que depois que fiz o café da manhã para meus filhos, coloquei algumas coisas numa bandeja e levei café para ela, agradeceu-me quatro vezes, mas não gosto muito de agradecimentos, não sei porquê. Pensei como expressar-me naquele momento depois que ele já tinha passado, pensei-pensei e nada vinha à minha mente. Deitei na cama, enquanto ela comia, ofereceu-me, agradeci. Mas não queria nada comer, queria mesmo é ficar ali, especificamente ali, parado, olhando aquilo que via, surpreso, com o comum-
-belo que via, não vou dizer o que era porque não tem como adjetivar, tive um café da manhã maravilhoso, duas vezes, e não comi nada. O senhor entende?

     Uns minutos depois a consulta acabou, o psicólogo recomendou que Wágner viesse mais vezes, porque excesso de amor é um grande problema quando nos sobram adjetivos e definições, mas não quando faltam, isso significa que não precisava de nada além de alguém para conversar, o rapaz não sabia o porque disso, pensou. Se era normal e estava normal, porque tinha que voltar?

     Logo na saída do consultório então perguntou. E a resposta foi:
- Você não precisa, voltas se quiser!

     Faço terapia há dois anos com outros psicólogos e nunca tinha sido tratado com tamanha desimportância, senti-me quente com aquela banal resposta de um "tratador de seres-humanos". Voltei por mais oito meses, e ele faleceu. Contei aquilo para todos no seu enterro, achei a mais verdadeira história de quem ele era, um psicólogo, mas, antes disso, um "desimportador" para que as pessoas a sua volta soubessem da importância que tinham, esperava com maestria a consciência de cada um.
    Não faço tratamento desde então. Porque é vazio sem aquele nobre velhinho. Casei-
-me dias depois que iniciamos o meu tratamento; ele disse que amar passou a ser a solução daquilo o que chamava de vida, não pensei duas vezes em pedi-la em casamento naquele mesmo dia. Casamos ao pôr-do-sol, o psicólogo foi um dos padrinhos; e até hoje choro quando vejo as fotos daquele que deu-me significado aos nasceres e aos pores-
-do-sol, deu-me significado a ouvir a música ainda mais alta sempre que acordo; deu-me significado a sentir a respiração dela, a sentir seus olhos nos meus; deu-me o desejo de provar as coisas, e mesmo quando ao desprazer deparar-se, sempre experimentar o gosto que tudo o que existe tem. Deu-me certezas, passei a escolher outros poréns com o tempo, mas sempre valorizar àquilo o que passou...


2 comentários:

  1. Agente sente o valor das coisas com o tempo, e admite para nós mesmo essa necessidade do outro, se aprofundando cada vez mais na gente. Profundo teu texto, Duro, mas profundo.

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    1. "Tudo muda o tempo todo", mas o respeito tem q ficar. Não achei duro, achei bonito e real para com os mais velhos :)

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